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Fotografia João Henriques (Uma das poucas coisas que ainda conseguimos ver na Gâmbia, logo à entrada)

Cada vez que os meus pés descalços e sujos roçavam naquela superfície gordurosa, o sono interrompia-se. Acordava em sobressalto, arfando, lembrando-me do rato que tinha visto há poucos minutos passar por aquela parede. O corpo suado, húmido, como se tivesse sido embebido em óleo vegetal. Fechava os olhos, tentava voltar a dormir, voltava-me para um lado, depois para o outro, nervoso e desassossegado com aquele efeito de estufa que me fazia ferver a pele e os neurónios. Pela minha cabeça, passavam flashes vertiginosos; estava preso numa masmorra em forma de cidade, às escuras, com porcos e ratos à solta aos meus pés, procurava e perguntava desesperadamente por uma casa de banho a pessoas sujas e suadas como eu, em vão, pois não havia água na masmorra. Acalmava. Quando a sonolência acalmava o espírito, aparecia uma esquadrilha de mosquitos assassinos em voos rasantes sobre as minhas orelhas: “Bzzzzz”, “Bzzz”. Furioso, tentava abatê-los com palmadas mortíferas, atingindo a minha própria testa com violência. Sentava-me novamente, depois saltava, procurando desalmadamente a garrafa de água naquele buraco escuro, sedento, apalpando cego o chão porco e tocando na parede onde tinha passado o rato. Queria uma sanita, um chuveiro, uma ventoínha e uma torneira. Mas na masmorra não havia nada. Olhava para o lado. O Fontes sacodia os mosquitos. O Henriques tinha ido dormir para o carro. Onde é que estou? Farafenni, na Gâmbia. Gâmbia? Mas este país nem estava no projecto. Como vim aqui parar?

Fotografia João Henriques ( Quarto de Amadou , policia fronteiriço da Gâmbia )

Estava tudo calculado para chegarmos hoje a Bissau. Para pouparmos tempo e gasóleo tínhamos decidido atravessar a Gâmbia, o país mais pequeno de África, em vez de a contornarmos, o que implicaria um desperdício de 300km e de mais de seis horas de viagem. Acordámos ao amanhecer com o despertador melodioso dos cânticos religiosos que continuavam a ecoar por Touba e arrancámos por volta das 7h da manhã para evitarmos o trânsito infernal do regresso a casa depois da peregrinação. E estávamos a consegui-lo até que, à saída da cidade, o carro começou a travar sozinho outra vez. E a travar mais, cada vez mais, até que parou, irremediavelmente, à beira da estrada, sendo ultrapassado por camiões velhos cheios de gente que avançavam a passo de caracol. Mais uma vez, o jipe estava a deixar-nos em maus lençóis. Desta vez, apeados numa cidade santa, repleta de mesquitas mas vazia de serviços automóveis. Ligámos para Darou, o nosso anfitrião em Touba, que já nos tinha dito que conhecia um mecânico. Apareceram duas horas depois. Mouda, o mecânico salvador, vestido com um equipamento amarelo do Chelsea, começou por tentar afinar os travões. Sem resultados. Depois, tirou e sangrou as rodas, limpou e lixou os cilindros e voltou a pôr tudo no seu lugar. Pela complexidade do exercício parecia que o problema estaria resolvido. Puro engano. O Land Cruiser continuava teimosamente a recusar-se a acelerar e o sol batia cada vez mais forte nas nossas cabeças. Estavam cerca de 35º. Finalmente, Mouda trocou a bomba e o carro ressuscitou, ao contrário de nós, assassinados pelo calor. Às 14h, voltámos à estrada. Já não íamos chegar hoje a Bissau.

Fotografia João Henriques

Fotografia João Henriques ( Os nossos amigos de Touba )

Atrasados, metemos o carro pelas pistas laterais à estrada, devolvendo aos súbditos de Touba toda a poeira que contaminou as nossas gargantas nos últimos dois dias. A partir de Kaolack, uma cidade comercial no caminho para a Gâmbia, o cenário envolvente entra de novo em mutação com palmeiras e riachos a emergirem gradualmente em nosso redor. À medida que nos aproximávamos da fronteira com a Gâmbia, com a luz a desaparecer, buracos fundos começavam a minar a estrada e obrigavam-nos a reduzir a velocidade. A linha de fronteira apareceu já em pleno lusco-fusco, a pior hora para mudar de país. Por isso, decidimos pernoitar na primeira cidade da Gâmbia. Mas a oficial da polícia de imigração deu-nos uma notícia decepcionante: “Se quiserem atravessar a Gâmbia sem parar não pagam nada. Se pararem, pagam visto”. 45 euros para os três. Preço proibitivo depois das despesas causadas pelo carro. A situação estava de novo mal parada.

Cansados, amolecidos e adoentados pela carga solar sofrida pela manhã, e sem vontade de cruzar de noite o Rio Gâmbia para a outra margem, só nos apetecia dormir em Farafenni, a primeira cidade do lado gambiano. A raia que separa o Senegal da Gâmbia é uma farsa. Dos dois lados da cancela vive o mesmo povo, dividido pela vontade colonial. Do lado senegalês, fala-se francês. Do lado da Gâmbia, somos saudados em inglês.

Farafenni estava às escuras, com mais um corte de energia, ensonada, o que diminuía significativamente as hipóteses de encontrarmos uma solução para o imbróglio. Até que chegou Amadou. A escuridão era tanta que não lhe conseguíamos ver a cara, apenas duas fileiras de dentes luminosos e um excêntrico barrete vermelho. Amadou condoeu-se com o nosso rol de problemas num só dia e ofereceu-nos dormida em sua casa. Subornámos o guarda alfandegário com uma bola de futebol para que fechasse os olhos à hospitalidade de Amadou e nos marcasse o passaporte com um carimbo de trânsito: “Amanhã, se vos mandarem parar, digam que tiveram uma avaria no carro”, aconselhou.

Fotografia João Henriques ( Amadou na barraquinha onde comemos o mafe

Conhecemos melhor Amadou durante um delicioso jantar de maffé numa barraquinha da cidade. Tem 29 anos, é de etnia fula e trabalha na polícia de imigração. É simpático e disponível. Foi enviado para Farafenni há três meses para começar o novo trabalho: “Foi o presidente que me deu este emprego. O nosso presidente é boa pessoa, não gosta de ver ninguém desempregado”, diz Amadou. Mas a reputação de Yahya Jammeh, presidente da Gâmbia, junto da comunidade internacional está longe de ser famosa. Em 1994, com apenas 30 anos, arrebatou o poder com um sangrento golpe de Estado e tem governado o país há quase duas décadas com mão de ferro. Sobre ele, recaem inúmeras acusações de violações de direitos humanos, como o assassinato de jornalistas, imigrantes ganeses, estudantes e políticos adversários. Também prometeu cortar a cabeça a qualquer homossexual que encontrasse no país. Além disso, é bastante excêntrico – às quintas-feiras, abre as portas da sua residência governamental para receitar à população pretensas curas para a SIDA à base de misturas de ervas naturais. Jammeh é o protótipo do líder africano sem escrúpulos mas Amadou não quer ou não pode saber disso. O presidente deu-lhe um trabalho e por isso é boas pessoa.

Fotografia João Henriques ( Amadou policia fronteiriço da Gâmbia )

Para perceber a importância daquele trabalho para Amadou, é preciso entrar na casa que lhe foi cedida nas instalações da polícia fronteiriça. A casa são dois quadrados velhos, com buracos nas paredes e de chão cimentado num bairro com ruas de areia de praia, onde suínos, caprinos e galináceos andam à vontade. No quadrado de entrada, não há nada. Nem um objecto pendurado, nem uma coisa no chão. Nada. Nenhum elemento de decoração. No segundo cubículo, vive Amadou. Os seus pertences contam-se pelos dedos de uma mão. Tem um saco com roupa em cima de uma cadeira, uma boina e o uniforme de trabalho pendurados na parede, um colchão de casal no chão, dois livros com Alá no título espalhados pelo chão e cassetes audio comidas pela erosão. E um telemóvel, objecto central na sua vida. Longe da sua namorada, família e amigos, que vivem na capital Banjul, Amadou passa as noites sozinho a ouvir música gravada no telemóvel, essencialmente composições de kora, um instrumento musical de cordas bastante apreciado na Gâmbia, no Mali e na Guiné. Os pouco mais de 100 euros por mês que ganha aqui chegam-lhe para suportar o aborrecimento: “Às vezes chateio-me, mas com a música fico logo feliz. É a minha paixão”, conta.

Escusado será dizer que a casa também não tem água nem casa de banho. Por exemplo, para tomar banho é preciso ir à rua, tirar com um balde água do poço e levá-la para um pátio ao ar livre, onde chapinhamos o corpo com água turva. A camada de sebo que tínhamos sobre nós era tão grande que, mesmo primário, este duche nos soube como uma emersão numa banheira de jacuzzi. O pior foi quando voltei ao quarto. Um rato passeava sobre a cama e logo a seguir pela parede. Apesar de estar sozinho no quarto, não esbocei reacção. O João Henriques já me tinha preparado quando veio da casa de banho da fronteira. Parece que a fossa estava entupida e a água dava-lhe pelos tornozelos, atraindo a si abelhas e outros insectos. Quando tentou puxar o autoclismo, saiu do seu interior um lagarto e viu uma ratazana no pátio enquanto tomava banho. Por tudo isto, aquele singelo roedor já não era para mim mais do que um ratinho de estimação. Além disso, não era aquele bichito inofensivo que me ia tirar o prazer de dormir num colchão. E deitei-me.

Fotografia João Fontes ( João Henriques toma banho no quintal de Amadou com água do poço)

Mas o subconsciente decidiu manifestar os seus ímpetos. E aí, tudo se misturou na minha cabeça para cozinhar uma noite de insónias. O calor, os mosquitos, o rato, as abelhas, o lagarto, os travões, a tosse seca cheia de fumo de escapes de Touba e o estado febril provocado por aquele sol do meio-dia criaram um argumento surrealista que agarrou o meu cérebro e não o deixou descansar. Quando Amadou nos acordou às 5h30m da manhã, estava desfeito. A cidade continuava às escuras. Chegámos, dormimos e saímos de Farafenni na mais densa das trevas, onde apenas fomos iluminados pelo sorriso simpático de um guarda fronteiriço. Farafenni até pode ser a mais bela das cidades mas eu não a vi. Por isso, até provas em contrário, ficará no meu imaginário como uma cidade-masmorra.

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