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Fotografia João Henriques ( Barco na travessia do rio Gâmbia )

Nunca tinha estado em três países diferentes no mesmo dia. Hoje era o dia destinado paraa fazê-lo. Tínhamos de começar a nossa jornada na Gâmbia, entrar novamente no Senegal pela região disputada de Casamança e, por fim, cruzar a fronteira com a Guiné-Bissau, acelerando para chegar a Bissau antes do anoitecer. O passado colonial ditou que estes três países vizinhos fossem divididos por fronteiras de interesse e que tenham hoje três línguas oficiais distintas: o inglês, na Gâmbia, o francês (e o wolof), no Senegal, e o português, na Guiné.

O primeiro obstáculo da jornada é a Gâmbia. Não é que atravessar a Gâmbia seja uma prova de resistência. Na verdade, até se consegue ir a pé de uma ponta à outra. São pouco mais de 50 km numa estrada de terra batida, a Trans-Gambia Highway, que tem como único ponto de retenção a travessia do Rio Gâmbia de ferry-boat. Por isso, saímos de casa de Amadou em Farafenni antes das 6h mas tivemos de esperar dentro do carro até à hora de partida do primeiro barco – 7h53m. O Rio Gâmbia divide a mais pequena nação de África ao meio e as suas margens férteis são o ganha-pão de muitos locais. Junto do cais de embarque, formou-se uma pequena aldeia de comerciantes. Logo de madrugada, as pequenas barraquinhas de venda de baguetes, água e enlatados abrem os olhos enquanto os nossos ainda estão de pálpebras coladas após uma noite de insónia.

Fotografia João Henriques ( Travessia do rio Gâmbia )

O bilhete para três passageiros e um carro custa 3300 CFA (5 euros) e o cruzeiro não dura mais de dez minutos. Porém, a paisagem é deslumbrante. Palmeiras e bananeiras dão-nos as boas-vindas na outra margem, sobrevoadas por pássaros vistosos de inúmeras espécies. Não obstante o seu tamanho, a Gâmbia é um país extremamente bonito: conta com seis parques naturais e algumas das praias mais exóticas da região.

Até à saída da Gâmbia são mais uns pares de quilómetros em marcha lenta, pois o pó que paira no ar obriga-nos a deixar uma distância de quase um quilómetro para o carro da frente, sob o risco de não vermos os vários desvios existentes na estrada e os transeuntes que se atravessam à frente do carro.

A viagem entre Farafenni e Bissau é relativamente curta (pouco mais de 300 quilómetros), mas torna-se maçadora pelo número de postos fronteiriços e pelo tempo perdido a convencer os agentes alfandegários de que não lhes vamos pagar nada que não esteja tabelado. Na pequena aldeia que assinala a reentrada no Senegal, o jipe é rodeado por crianças que imploram por canetas: “Monsieur, donnez-moi un BIC”. Damos mais de vinte canetas. Em menos de um mês de viagem, já demos quase metade do material que tínhamos destinado a distribuir pelas crianças.

A primeira diferença assinalável quando se entra na província de Casamança, a faixa de território senegalês que separa a Gâmbia da Guiné-Bissau, é a presença constante de militares e de veículos do exército na estrada. A explicação é simples – desde 1982 que o Movimento das Forças Democráticas de Casamança (MFDC), uma guerrilha rebelde que conta com o apoio de uma parte da população, luta pela independência de Casamança em relação ao governo de Dakar. A guerra civil dura há mais de 20 anos, com focos de maior e menor violência, e já fez milhares de mortos.

Os navegadores portugueses foram os primeiros a chegar à zona costeira de Casamança e exploraram o território até ao último quartel do século XIX. O português ainda é falado na zona sul da província e muitos dos seus habitantes têm apelidos como Silva e Carvalho. Essa identificação cultural com o passado colonial português é usada como argumento independentista pela MFDC. Porém, há argumentos mais fortes. O mais recorrente alude à quebra de uma promessa feita pelo primeiro presidente senegalês, Leopold Senghor, que em 1960 terá jurado que daria a independência a Casamança se a região se unisse ao Senegal na luta contra os colonos franceses. A promessa teria a validade de 20 anos e uma vez desrespeitada, levou a grandes manifestações pró-independência em Ziguinchor, capital da região. Em 1982, o exército senegalês ripostou contra uma manifestação pacífica e a vingança não tardou. O sangue não mais parou de correr até hoje, apesar dos esforços para tentar chegar a um cessar-fogo definitivo.

Outras das razões apontadas para a contenda é a existência de petróleo na região, uma das mais prósperas a nível económico em todo o país. Os Jola, etnia maioritária em Casamança mas minoritária no Senegal, reclamam para si os frutos dessa prosperidade e dizem-se prejudicados pelas decisões políticas de Dakar. Formaram a base da MFDC e encetaram ataques militares e terroristas, incluíndo sequestros de turistas ocidentais.

Tínhamos planeado fazer uma reportagem alargada sobre a situação de Casamança mas a ida a Touba retirou-nos o tempo necessário. Agora, todo o tempo é pouco para chegar a Bissau à hora estabelecida.

Somos recebidos na fronteira com um amigável: “Boa tarde”. Na Guiné-Bissau, ao contrário dos outros países francófonos, não somos assaltados por vendedores e pedintes desesperados por nos ver ir com as mãos aos bolsos. Aqui tudo é muito mais descontraído e familiar. Partimos ansiosos pelo meio de tabancas e riachos, vendo produtos e cartazes portugueses um pouco por todo o lado. Em Bissau, procuramos rapidamente um hotel com chuveiro, para tomarmos um relaxante banho que nos fugia há quatro dias. Depois, sentamo-nos numa esplanada com chapéus-de-sol das Pedras Salgadas e da Super Bock, olhamos para uma vitrine composta por pastelaria lusa e gritamos, sorridentes: “Um croquete e uma imperial”. Depois de um mês a saborear o travo picante do desconhecido, nada como voltar a sentir o refrescante sabor lá de casa.

Fotografia João Henriques


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